terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Cinema - Pré Estréia

Por Raphael Dias Nunes

JUVENTUDE
Com: Paulo José, Domingos de Oliveira e Aderbal Freire Filho // Direção e Roteiro: Domingos de Oliveira
BRA/ 2008, Comédia, 72 minutos


Premiado no Festival de Gramado, o novo filme de Domingos de Oliveira repete a boa e velha fórmula do diretor: forte relevância no texto e diálogos, sob uma temática simples. No filme, os personagens celebram uma longa e duradoura amizade, em um encontro numa casa em Petrópolis. O bate-papo deles revela lembranças, fases da vida, os amores passados e atuais, sexualidade, além da tônica conflituosa do homem que chega aos 60/ 70 anos de idade.

Domingos de Oliveira manteve o seu padrão, que pode ser associado com as experiências que ele próprio adquiriu em sua vida. Alguns reclamam que ele não muda, outros acham magnífico. Mas é inegável que isso é sua marca registrada. Apesar do filme ter três homens que esplanam seus pensamentos sobre a vida, o diretor conseguiu dar um jeito de manter a mulher como o principal foco destes questionamentos. "Ele não cresce", alguns comentam, sobre o diretor. Deve ser porque ele nunca deixou de ser uma criança...

Destaque ainda para a música, algumas delas compostas pelo próprio Domingos de Oliveira, além de clássicos de J.S. Bach. Destaque também para a atuação do trio de artistas, que se embrenham em diálogos primorosos e inteligentes. Não é à toa que são consagrados ícones da cena cultural brasileira. Outro simples e interessante fator que merece elogios é o nome dado ao trabalho: "Juventude" resume perfeitamente a mensagem que quis ser passada.
Criticado algumas vezes por detalhes técnicos de fotografia, o fato não chega a ser relevante, diante da natureza leve, sensível e envolvente do filme.

O evento de pré-estréia de "Juventude", ocorreu nesta segunda-feira, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. O trio de protagonistas compareceu, dando uma pitada de bom-humor e descontração antes e depois do filme. Além deles, ilustres personalidades como as atrizes Marieta Severo e a bela Pitty Webbo.
E como é belo ver Domingos e Paulo José juntos, depois de tantos anos e trabalhos conjuntos! Uma linda relação, que dá mais legitimidade e credibilidade à realização do longa. No coquetel após o término da sessão de gala, Domingos de Oliveira, mais pra lá do que pra cá - mas sem perder a pose - deu ainda uma canja no microfone. Cantou músicas que iam de Frank Sinatra até marchinhas de carnaval (confira na imagem ao lado), contagiando e animando ainda mais o público. Figuraça querida!

XXX

Foto filme (no topo, à esquerda): Divulgação
Foto show Laura Alvim: Raphael Dias Nunes


Saudações chorumélicas!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Em Cartaz

Por Raphael Dias Nunes

ROMANCE
Com: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andrea Beltrão, José Wilker // Direção: Guel Arraes
BRA/ 2008, Drama.

Após "O auto da Compadecida" e "Lisbela e o Prisioneiro", Guel Arraes tem como tônica a representação do amor em uma de suas formas mais dramáticas. Baseando seu roteiro dentro de um outro roteiro, do romance "Tristão e Isolda", o diretor monta duas representações deste clássico da literatura mundial: Uma no teatro e outra no cinema. No teatro, seus principais protagonistas (Wagner Moura e Letícia Sabatella) se apaixonam perdidamente, inspirados no amor dramático dos personagens do livro. E como todo bom romance, a trama é recheada de sofrimento e impossibilidades.

A união do casal começa na peça, que é dado por uma visão de direção e atuação. Todas as dificuldades orçamentárias, de locação, patrocínio, etc. também são evidenciadas. A desunião dos protagonistas se dá pela oferta à atriz Ana (Letícia Sabatella) de fama, riqueza e sucesso da televisão, que contrasta com a paixão imprescindível pelo teatro do diretor Pedro (Wágner Moura). Toda essa glamourização televisiva, inclusive, é frequentemente ironizada por Guel Arraes.

A produção faz uma grande homenagem ao teatro, à literatura e ao amor. Recursos metalinguísticos são usados a todo instante. O meta-teatro e a meta-TV foram as cartadas que Arraes encontrou para reverenciar estas artes. No fim, o diretor Pedro dá uma volta no magnata diretor de TV (José Wilker), com um proposital erro de continuidade, o que é uma espécie de "aula de cinema/ mini-série televisiva" ao espectador. Interesante e inteligente.
Um lance de mestre que coroa um filme de final feliz até previsível e despretencioso, porém envolvente do início ao fim.

FELIZ NATAL
Com: Leonardo Medeiros, Darlene Glória e Graziella Moretto // Direção: Selton Mello
BRA/ 2008, Drama, 100 minutos


O primeiro longa-metragem de Selton Mello possui uma pesada dose de melancolia e depressão. Sob uma atmosfera cruel, os problemas viscerais de uma família que já estava em cacos são evidenciados dentro de uma festa de Natal. O título do filme é uma interessante ironia a este "obrigatório" ritual, que se repete mesmo em casos perdidos.
No cardápio, o vício, o porre, a gula, a ira, a sacanagem, a falta de respeito, a podridão total humana e todos os elementos de uma dura realidade do cotidiano das classes médias e baixas no subúrbio. A carência de instrução familiar às bases, contaminam um interminável círculo vicioso.

Na questão familiar, as consequências brutais do rompimento decadente de um núcleo. A mãe, fora de si, entregue ao porre e à insanidade, em atuação grandiosa de Darlene Glória. O pai, um tarado perverso, sofrendo de impotência e incapaz de perdoar um de seus filhos, o Caio (Leonardo Medeiros). Caio, um ex-viciado em cocaína, que ainda sofre de abstinência, está recém saído de uma vida entregue à vagabundagem e às drogas, procura a redenção no casamento e no trabalho em um ferro-velho. Ele recebe uma ajuda financeira também de Théo, seu irmão.

Todos esses problemas chocantes são observados por pequenas crianças inocentes, que também têm papel importantíssimo, por dar a idéia de seres que são produtos do meio em que vivem. Uma triste idéia de continuidade de rumos perdidos. Caio sofrerá muito para mudar de vida e terá de vencer inúmeras dificuldades, tentações e problemas que o puxam cada vez mais para baixo.

Para quem quer ver um filme light, o longa pode até assustar por seu teor. A visão de Selton Mello é válida e real, diante de uma brilhante direção de fotografia. Entretanto, a trilha sonora deixa a desejar e ainda torna-se massante quando se casa com os intermináveis planos-sequência estáticos e monótonos. Tudo isso torna o filme (talvez propositalmente) cada vez mais cansativo. Apesar de não ser perfeito, a tragédia/ degradação humana predominante no fim, dão o tom de uma mensagem bem transmitida pelo diretor.

Para um espectador desprovido de frescuras, é um mal-estar necessário.

sábado, 22 de novembro de 2008

Woody Allen em dose dupla.

Por Leonardo Vicente

Em cartaz nos cinemas do Rio, Vicky Cristina Barcelona veio para confirmar a boa fase do diretor nova-iorquino Woody Allen. O filme traz novamente em um dos papéis principais a atriz Scarlet Johansson que já havia contracenado nos filmes de Allen em Scoop – o grande furo (2006) e Match Point (2005). Além bela atuação de Johansson como Cristina, uma jovem que almeja descobrir sua vocação para as artes e acredita no amor tempestuoso, a atuação de Penélope Cruz (Volver), como Maria Elena, confirma o talento que a atriz não demonstrava há tempos devido a papéis não muito marcantes.

Novamente, Allen não escolheu a cidade de Nova Iorque para ser o cenário principal. O filme se passa nas cidades de Barcelona e Oviedo, porém, a cidade norte-americana berço do diretor não poderia ficar de fora, algumas cenas também foram gravadas lá.

Em Vicky Cristina e Barcelona, Woody Allen consegue abordar, com a sutileza que vem se especializando, vários temas interessantes como a paixão e suas variações. O caso da personagem Vicky (Rebecca Hall) é um exemplo disso: Segura, Vicky é o tipo de pessoa que sempre planejou com pormenores toda a sua vida, mas durante a viagem e devido a alguns acontecimentos começa a questionar se é essa realmente a vida que gostaria de levar . O filme também quebra preconceitos desrotulando o romance com o triângulo amoroso entre as personagens Cristina, Maria Elena e Juan Antonio (Javier Barden). A cena mais polêmica é a do beijo entre as atrizes Penélope Cruz e Scarlet Johansson.

Com o olhar do meio artístico da burguesia que Allen conhece muito bem, a ótima escolha da trilha sonora, as grandes atuações de todos os atores (o que é já é de se esperar nos filmes de Woody Allen) e os diversos temas bem abordados, Vicky Cristina Barcelona torna-se um filme imperdível para os amantes da sétima arte, fazendo valer à pena cada centavo do ingresso e da pipoca.

Para quem quer saber mais, assista o trailer aqui:


O Chorume recomenda:

Outro filme imperdível de Woody Allen para os cinéfilos de plantão é o filme que antecede ao que se encontra de cartaz, O suspense dramático O Sonho de Cassandra (2007) surpreende novamente por não levar o toque cômico do diretor e por ser o terceiro filme seguido que não é rodado em Nova Iorque. A estória se constrói toda em Londres.

No filme, os atores Ewan McGregor (Trainspoting) e Colin Farrel (Por um fio) interpretam dois irmãos com ambições diferentes, porém com laços familiares muito fortes, que se vêem diante de uma proposta do tio deles, interpretado por Tom Wikinson, que se torna quase irrecusável diante das situações que se encontram – um viciado em jogo e outro com ambições maiores do que gerenciar o antigo restaurante da família.

Em O Sonho de Cassandra, Woody Allen “brinca” com o caráter de cada personagem e os envolve em uma trama que, muito interessante, leva o suspense ao extremo. Com belas atuações, talvez o único problema do filme é parecer que acaba de uma hora pra outra com um final talvez não muito bem trabalhado.

Porém, por ser um ótimo suspense dramático e com uma ótima estória, O Chorume recomenda-o àqueles que gostam do trabalho de Allen e de filmes do gênero.

Clique aqui para assistir o trailer do filme.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Comentários sem comentários


foto: blog Máquina de Escrever, do G1

Por Alexandre Vasconcellos

Tem coisas na imprensa que dão dó. Destas, aliás, estão por demais cheios os jornais, sites, blogs noticiosos, revistas, etc. Mas quando há o que se elogiar, elogiemos também!

Um interessante exercício de reflexão sobre cultura pode ser feito a partir de uma simples nota sobre uma conferência literária, mais especificamente, no Fórum das Letras de Ouro Preto (Flop – que, em parceria com o Fórum de Parati, Flip, formam a dupla de quase-onomatopéias mais propensas a trocadilhos da cena cultural-intelectual tupiniquim). A reportagem, em si, é muito boa.

Pois bem. Debatiam, na abertura do Flop, o músico Lobão e o multifacetado Nélson Motta. Do tradicionalmente polêmico Lobão, veio o que se espera: polêmica. Do geralmente apaziguador e tranqüilo Motta, veio o inesperado: polêmica. Enfim, prato cheio para a imprensa.

Segue um trecho da matéria do jornalista e escritor Luciano Trigo, enviado do blog “Máquina de Escrever”, do G1, ao evento:

“Eu acho o Chico Buarque um horror, um equívoco, um chato, um parnasiano. O Olavo Bilac é muito mais moderno que ele. Ele faz uma música anêmica, sem energia, sem vivacidade, parece que precisa tomar soro. A Bossa Nova é a mesma coisa, uma música easy listening, que toca em loja de departamento quando a gente vai comprar uma meia”.

Precisa falar que esta frase é do Lobão?

Você discorda da argumentação do Lobão por ter sido feita por ele? “Quem é ele para falar de Bossa Nova”, alguns dizem.

E esta?

“Tirando Tom, Vinicius e João Gilberto, tudo que veio depois na Bossa Nova foi diluição. A gente sabe que Roberto Menescal, Carlos Lyra etc são músicos de segundo time”.

Proferida por Nelson Motta, ativista do Tropicalismo antropofágico do fim dos anos 60e de tudo que houve de lá para cá. Para alguns, um grande estudioso da cultura brasileira. Para outros, um ufanista.

Qual dos dois está mais certo, pergunto aos colegas chorumélicos? Com qual você concorda?

Você está julgando o que? O que disse o Lobão e o Nelsinho, ou quem o disse?

Muito se fala (inclusive por mim) do nível da produção jornalística e cultural contemporânea. È raso, é pretensioso, porém, pouco ambicioso. Ou é excessivamente saudosista ou é uma roupagem nova de velhos conceitos. Falta o novo. Fácil ouvir isso sobre a arte dos dias de hoje. Já sobre a imprensa, tacar pedras é moleza (e principal mote deste blog). Tem a sensacionalista. Tem a panfletária, partidária, enviesada. Tem a pobre mesmo, sem recursos lingüísticos e técnicos, preguiçosa.

Mas, voltando a matéria da Flop, outro detalhe me salta aos olhos. Como exercício, caro leitor desta lixeira, leia os comentários deste post. Um show de horror! Nem me atenho a resenhar os erros de português, que, em internet, são corriqueiros. Mas a capacidade argumentativa das pessoas é lastimável! E o que mais me assusta (porém, não surpreende): a impressão de que vivemos num mundo carente de cabeças pensantes! Sem falar na falta de respeito pela opinião alheia, seja esta de um artista ou de um outro “comentarista” no post.

Quem é o Lobão ou o Nelsinho para falar da Bossa? E quem é você para falar do Lobão ou do Nelson?

Argumentos como estes iniciam brigas, validam mordaças e ditaduras. As institucionais e as culturais. As explícitas e as cotidianas. As que nossos pais viveram e a que vivemos hoje.

É este o público para o qual a arte e a informação são produzidas? Devemos repensar, então, a qualidade de quem? A arte e o artista são reflexos da sociedade? E a sociedade, é reflexo de quem?


Pensem. O mundo precisa.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Duas breves resenhas; Duas grandes produções

Por Raphael Dias Nunes

O CHORUME - CINEMA

NA NATUREZA SELVAGEM (Into the Wild)
Com: Emile Hirsch / Direção e Roteiro: Sean Penn.
EUA/ 2007, Drama, 140 min.

Sean Penn iniciou sua carreira de diretor em grande estilo. O filme se baseia no homem que busca a redenção, se rebela definitivamente contra o sistema político vigente, que começa pela família.
Essa é a história de Christopher McCandless, que depois de se formar, cai na estrada sem rumo. Uma espécie de auto-afirmação, um surto contra os padrões de vida norte-americanos, em um momento de transição de sua vida, no início da década de 90. McCandless abandona sua família, doa e queima todas as suas economias, muda de nome e mergulha de cabeça no desconhecido. Uma espécie de sonho de liberdade com um quê de rebeldia, tudo isso de uma forma impressionantemente convicta.

O roteiro não segue uma ordem cronológica exata. O filme se inicia no começo do fim de sua jornada, quando ele chega ao Alasca, buscando logo no auge de suas aspirações de se isolar cada vez mais. Com uma trilha sonora maravilhosa, orquestrada por Eddie Vedder, são mostradas as transformações tanto filosóficas quanto físicas do jovem - que acabara de entrar em sua segunda década de vida. Tudo isso em perfeita sintonia com o som. O personagem cita diversos autores literários, em especial os franceses, mas o espírito beatnik é também marcante pelo estilo de vida adotado na estrada, com caronas, música e a ideologia não idealizada de sempre ir em frente.

No Alasca, em contato mais íntimo possível da vida selvagem, o personagem é consumido cada vez mais por essa dura vida desconhecida até então. Árduas lições são absorvidas por ele, que em dado momento grava em seu ônibus-abrigo (o Magic Bus) "Hapiness is only real when is shared". A cadência dos acontecimentos vão comovendo o espectador aos poucos.

Além das frases marcantes e personagens sensacionais no caminho do aventureiro, um surpreendente final coroa esta grande e bela produção. Vale a sua audiência!


xxxx x xxxx x xxxx xxxx x xxxx x xxxx


EDU, CORAÇÃO DE OURO
Com: Paulo José e Leila Diniz/ Direção: Domingos Oliveira.
Brasil/ 1968. Comédia, 85min, P&B

Um filme onde a grande ALEGRIA da vida é celebrada
a todo INSTANTE que se passa
seja na MELANCOLIA extrema
no porre e na FARRA com os amigos
ou no não realizado e frustrante MATRIMÔNIO cultural
Enfim, uma CRÔNICA de um carioca LÍRICO-OBSCENO.

Em um longa de brilhante direção, Domingos de Oliveira dá uma aula de como se fazer um bom filme usando poucos recursos. Com um texto poeticamente formidável e tiradas brilhantes dos personagens, a tônica desta obra é o homem solteiro contemporâneo, que busca formas de ser feliz independente da instituição "casamento", mas que no fundo gostaria de ter um. O homem solitário, próximo de chegar aos 30, reflexivo pós-traumas amorosos. O homem inquieto, insatisfeito, intenso, mas que muitas vezes nem sabe direito o que realmente busca.

Além disso, é redesenhado o perfil do carioca contemporâneo: O cara curioso, incansável azarador eterno, que se apaixona a todo instante por todas as formas da beleza de ser da mulher. Os efeitos inovadores de microfonagem mostram a malandragem do protagonista (Edu) que usa uma oratória sincera e interminável para se esquivar de assuntos indesejados. Um ser serelepe, popular, falador, fanfarrão, palhaço e inquieto pelo efeito que as mulheres fazem nele.

Com uma também incrível direção de fotografia, principalmente nos enquadramentos, belíssimas imagens do Rio antigo se misturam com constantes reverências às diversas artes: A música de Noel Rosa e Carmem Miranda; ao metacinema (Singing in the Rain/ Deus e o Diabo na terra do Sol), ao desenho, à fotografia, ao jornalismo e também à poesia.

Algumas grandes frases citadas:
- "Esse tempo de ócio, eu prezo-o nu"
- "Manter a palavra e o compromisso é extremamente difícil. Igualmente difícil é fingir que elas não existem
- "Jornalismo não busca coisas boas e sim as ruins"

No fim, um interessante contraste entre o fundo do poço e a alegria extrema se chocam, deixando as conclusões finais e críticas por conta do espectador. Em suma, um filme curto e dinâmico, que não cansa em momento algum, apesar de ser em P&B.
Simplesmente maravilhoso.

Saudações Chorumélicas!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pílulas Culturais

Por Alexandre Vasconcellos


Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys, durante show retratado em DVD

Arctic Monkeys At The Apollo

Sim, o Festival do Rio acabou. Mas as novidades nas telas de cinema, não. Em interessante iniciativa de marketing, a banda inglesa Arctic Monkeys fez a première de seu novo DVD, “Arctic Monkeys At The Apollo”, em exibições simultâneas em salas de cinema de cinco países: Inglaterra, Luxemburgo, Espanha, Bélgica e...Brasil! Mais uma prova da importância tupiniquim no cenário internacional da indústria fonográfica.

No Brasil, o show de encerramento da última turnê da banda, realizado em Manchester (ING), no místico The Apollo, foi exibido nesta terça-feira, no tradicional Cine Odeon. Como era de se esperar, uma boa quantidade de fãs e apreciadores da banda compareceu, assim como a reportagem de O CHORUME.

Como DVD, este lançamento trará o que se espera da banda inglesa: um rock agitado, bem tocado e contagiante. Os Arctic Monkeys estouraram em 2006, após intensa divulgação boca-a-boca em sites de relacionamento e compartilhamento de músicas, tornando-se uma febre na Inglaterra e sucesso internacional. Seu primeiro álbum, "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not", tornou-se o álbum de estréia mais vendido na história, batendo o "Definetly Maybe", dos também britânicos do Oasis, de 1994.

Sobre esta obra, infelizmente, ficou faltando uma maior captação do público no show, com uma imagem demasiadamente centrada na banda e poucas inserções sonoras da platéia, o que deixou o DVD “menos quente” do que se esperaria.

A filmagem em si dá a entender que haverá logo uma versão 3D em exibição nos cinemas, quando o DVD cairá no circuito comercial, em novembro.

Mas o evento em si, apesar de conceitualmente interessante, acabou sendo um tanto arrastado. Como não havia uma ambientação da sala de cinema para dar um clima de show e o som da casa não estava tão alto, a exibição acabou perdendo força. Mas foi um bom programa.

Como evento, nota 6 para execução e 10 para a idéia.

Como DVD, nota 8.



“A Vida Sexual da Mulher Feia”, TAJES, Claudia - Ed. Agir, 2005

A Vida Sexual da Mulher Feia

Barangas, não se ofendam com o título. Jamais a equipe CHORUME cometeria a indelicadeza de indicar uma leitura ofensiva a quem quer que seja. E “A Vida Sexual da Mulher Feia” é, sem dúvida, uma ótima recomendação!

Este livro, da redatora publicitária Claudia Tajes, traz as aventuras (ou melhor, desventuras) de Jucianara, que como ela mesma se descreve, “os pais de uma menina recém-nascida não podem imaginar que um dia ela se transformará em uma mulher feia. Mas talvez seguindo algum instinto, eles dificilmente darão à filha um nome bonito”.

Em tom desconcertantemente tragicômico, a autora fala da primeira paixão de infância, primeiro beijo, primeira vez, casos amorosos diversos, tudo com a vida familiar e profissional de Jucianara servindo de pano de fundo.

Falando “de coração aberto” sobre ser uma mulher feia, em um texto gostoso e leve, apesar da desgraça da personagem, Claudia traz à luz a discussão em torno da beleza e seu papel na sociedade atual. Ou melhor dizendo, da feiúra e sua função devastadora na vida de quem quer que assim seja, ou pior, assim se sinta. No final, uma série de depoimentos de outras “barangas” e suas desventuras.

O livro diverte e toca desde as mais belas às menos privilegiadas. E aos marmanjos também, de todos os tipos e gostos. Muito fácil também perceber que parte das deliciosamente bem-contadas catástrofes ali despejadas são corriqueiras na vida de qualquer pessoa.

Nota do livro: 9

domingo, 28 de setembro de 2008

"Gomorra" e "Palavra Encantada"

Por Gabriel Mattos

O Festival começou e minha incursão nas críticas cinematográficas também.

Os pitacos iniciais serão para o italiano "Gomorra" e o documentário brasileiro "Palavra Encantada".

O primeiro, concorrente italiano a uma indicação ao Oscar, traça um mosaico complexo de várias histórias, culminando no ponto central da crítica: a complexa organização da máfia napolitana.

O jovem diretor Matteo Garrone ("Primo Amore") combina diferentes cenários sociais e mostra como a figura do ser humano se relaciona numa teia de poder e violência. Se perdendo um pouco em algumas histórias desconexas, Garrone consegue, no entanto, criar personagens fortes com uma trilha sonora afinadíssima com a fotografia.

Apesar da temática "Poderoso Chefão", que norteou a maioria das películas sobre a máfia, o filme consegue apresentar uma realidade mais crua, com menos risca de giz que os "Corleone" e sem cair na apelação.

Inspirado no livro homônimo do escritor italiano Roberto Saviano, o filme ainda traz atuações precisas e convincentes. Vale o ingresso!




O segundo é um documentário da premiada Helena Solberg ("Vida de Menina"). O filme reúne alguns dos mais notáveis compositores brasileiros para discutir as letras das músicas e, o que é mais provocador, se elas são uma forma de poesia. Entre muitas entrevistas, a diretora lança imagens raríssimas de Chico Buarque e Ismael Silva.

Com muita sensibilidade, Solberg não faz nenhum épico, no entanto, tece com delicadeza as complexidades poéticas dos nossos grandes letristas. Ajudada por uma produção de imagens fantástica, o doc não decepciona o espectador no quesito emoção.

Diante da prospecção linguística de tantos gênios, fica até difícil escrever sobre, vão ao cinema e apreciem o que nossa cultura tem de melhor.

Em breve, mais resenhas chorumescas do Festival do Rio.

sábado, 27 de setembro de 2008

Crítica Musical O CHORUME: Dig Out Your Soul, novo álbum do Oasis


Como uma onda, Oasis tomou de assalto a cena musical pós-Nirvana, emplacando hits e influenciando bandas. Após o auge e com a idade, pareceu perder sua identidade juvenil "sex, drugs and rock 'n roll". Com Don't Believe The Truth (2005), Noel Gallagher finalmente viu seus companheiros criarem canções de bom nível, em especial seu irmão, Liam. Pareciam finalmente ter encontrado um novo caminho.

E é isto que o álbum Dig Out Your Soul, 7º disco de estúdio, veio para demonstrar. Se não é a simplicidade raivosa de rapazes da classe trabalhadora, é, definitivamente, um conjunto maduro que tem como foco a música e suas fronteiras criativas. Não, Noel não parou de roubar riffs, trechos de melodias e idéias de outras bandas. Mas agora, soa diferente. De Jim Morrison a Marilyn Manson, passando pelos Beatles (é claro), tem de tudo neste CD.

Não, não é um Definetly Maybe ou um (What's the Story) Morning Glory? não. Mas, com certeza, é a produção da banda que tem mais o que dizer há muito tempo. Uma das maiores bandas de rock desde os anos 80 em sua maturidade e consolidação musical. Um quarentão bem resolvido, que não vai dominar o mundo, mas sabe o que quer.

Nota do álbum: 8,5

Dig Out Your Soul faixa-a-faixa (clique no nome da música para ouvi-la via youtube)

1- Bag It Up - Abre o álbum chutando a porta. Marcada pela bateria forte, lembra muito o espírito dos primeiros discos, porém, mais psicodélica e pesada. Beatles na fase "psychodelia" com distorção e um baterista de Hard Rock dos anos 80. (Nota 9)

2- The Turning - Acid Jazz de baixo e piano no começo, beirando o Lounge soft eletrônico. Daí vem o refrão estourando a caixa de som com um riff estranho e forte e uma melodia marcante. (Nota 9)

3- Waiting For The Rapture - Five to One, do The Doors, inegavelmente ali. Muda-se um pouco a melodia, fica-se apaixonado e questionador durante uma trip e pronto! Um bluesman doidão ouvindo Jim Morrison e tocando com Jack White (White Stripes). (Nota 7,5)

4- The Shock of The Lightning - Como se gritar "estou de volta, porra!" em uma música? Com muita distorção e bateria "espancando", uma letra inspirada e louca em uma melodia diferente, mas grudenta. Oasis mostrando que ainda sabe como se faz um "primeiro single" digno da banda. (Nota 8)

5- I'm Outta Time - Quem diria, a música mais melódica foi feita pelo Liam! Receita simples: melodia e letra bem casadas com uma batida pop rock, como titio Lennon ensinou. Aliás, o cérebro dos Beatles não tá só na entrevista que aparece no fim da música. Melhor canção composta pelo vocalista até hoje. (Nota 9)

6- (Get Of Your) High Horse Lady - Dois acordes, um clima meio velho-oeste, meio woodstock. Pegue uma melodia de blues, encaixe em Come Togheter (Beatles) e toque com o Velvet Underground. (Nota 7)

7- Falling Down - Quase eletrônico, mesmo usando elementos de puro Rock. Batida irresistível e melodia que se encaixa perfeitamente na voz do guitarrista, mais suave que a de seu irmão. Qualquer semelhança com "Tomorrow Never Knows", dos Beatles, que é "mãe" da música eletrônica, não será coincidência. (Nota 8)

8- To Be Where There's Life - Nesta música hipnótica, o baixo manda, com muito Groove! Ainda tem uma cítara rolando, clima George Harrison com Motown. Mas tem algo estranho...Ih, cadê as guitarras??? E não é que ficou legal? Bola dentro do guitarrista Gem Archer. (Nota 8,5)

9- Ain't Got Nothing - Liam compondo como Liam. Refrão simples, uma outra estrofe, repete-se tudo algumas vezes e pronto! O ar punk desta é, supostamente, resposta a uma acusação de agressão que caiu sob Liam em seus últimos suspiros de rebeldia. Agora, ele tá mais velho, maduro, pai de família...(Nota 6)

10- The Nature of Reality - Essa, do baixista Andy Bell, é uma verdadeira mistureba. Seu começo lembra Helter Skelter, dos Beatles. Mas logo o clima dark e um hard rock bruto aparecem, lembrando Marilyn Manson. A guitarra ataca de forma diferente, mas bem interessante, cheia de efeitos. Melodicamente está conectada ao espírito psicodélico do álbum. (Nota 7,5)

11- Soldier On - Outra que mostra a evolução de Liam Gallagher como compositor. Tem John Lennon sim. Mas sua levada puxa algo dos bluesmen ou R'n B, acompanhados por uma percussão marcial bem marcada, num loop hipnótico. Seu espírito é perfeito para fechar o álbum. "Soldier On" (agüenta firme, siga em frente), repetindo a expressão como um mantra até o fim, tal qual um épico do Velvet Underground. (Nota 7,5)

"Se gostar, compre. Se não gostar, não compre. É assim", diria o vocalista Liam Gallagher. E é isso: um álbum que não é para esvaziar prateleiras, mas encher ouvidos.

OBS: Como parte da interessante estratégia de lançamento do álbum (sai dia 06/10, mas já vazou), um grupo de artistas de rua de Nova York teve acesso a três faixas do novo álbum e pode executar suas versões para estas músicas espalhados pela cidade. Iniciativa sensacional!

(Get of your) High Horse Lady - Next Tribe

The Turning (Michael Shurman - grupo com Brasileiros tocando!)

Bag It Up - Dagmar

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Festival do Rio 2008





Começa nesta sexta o Festival do Rio, filmes para dar e vender durante 15 dias (25 set à 10 out). Encaixando um horário aqui outro ali, consegui me organizar para 20 filmes. Pouco, para a gama de 350, que variam entra Mostras Gays, Panorama Mundial, Filmes Trash, Clássicos e Nacionais.

Passarão pelas telas do Rio, Irmãos Cohen, Copolla, DePalma, Irmãos Taviani, Derer Jarman, Pablo Trapero, Woody Allen, Eric Rohmer, De Sicca, Felini e muito, mas muito mesmo, mais!!!

Vale lembrar que as vendas antecipadas começaram ontem (22/09) no Espaço Unibanco (Voluntários da Pátria). Os ingressos custam em média R$ 13,00, tem também algumas promoções no Odeon e no Palácio, além de passaportes de 20 e 50 filmes (130 e 250 reais respectivamente).

Para garantir o meu, fui lá ontem mesmo. Consegui comprar 15 filmes, os outros, como sempre, ainda não foram liberados.

Sem maiores delongas vamos ao que interessa, nossas singelas sugestões:

Começando pelos clássicos, quatro mostras são imperdíveis: Musas italianas, Derek Jarman, Irmãos Taviani e Arturo Ripstein.

Para quem curte é um prato cheio. “Julieta dos Espíritos”, Felini, é uma ótima pedida. Estrelado pela musa Giulieta Masina (“Noites de Cabíria”), o filme traça um paralelo entre real e imaginário tendo como pano de fundo, brigas conjugais.

Ainda excelentes sugestões são: “O Castelo da Pureza” do polêmico diretor mexicano Arturo Ripstein e “Allonsafran” dos Irmãos Tavini, diretores do consagrado “Pai, Patrão”, vencedor de Cannes em 1977.

Passando para os documentários, temos destaques tanto por aqui quanto para os gringos.“Jards Macalé, um morcego na porta principal”, de Marcos Abujamra e João Pimentel, é imperdível. Além dele, “Hipotecando os Eua” de Patrick Readon e “Procedimento Operacional Padrão”, de Errol Morris.

Pulando para a Premiere Nacional, temos uma excelente leva de estréias na direção. Selton Mello, com “Feliz Natal” e Matheus Nacthergale, com “Festa da Menina Morta”, são os principais. Temos ainda mestres da sétima arte brazuca, Domingos de Oliveira mostra “Juventude” e Julio Bressane, “A Erva do Rato”.

As estréias mais esperadas ficam por conta de Woody Allen, “Vicky Cristina Barcelona”, Brian De Palma, “Guerra sem Cortes”, Charlie Kaufman com “Sinédoque, Nova York”, os irmãos Cohen, “Queime depois de Ler” e Andrej Wajda com “Katyn”

Para fechar, a Festival vai trazer nomes consagrados do cinema latino. Pablo Trapero traz La Leonera, com Rodrigo Santoro no elenco, e Lucrecia Martins mostra “A Mulher sem Cabeça”. Outra boa pedida é “Liverpool”, de Lisandro Alonso.

Poderia sugerir ainda muitos e muitos filmes, mas fico por aqui. Neste site (http://www.moviemobz.com/browse/festivaldorio2008#) pode-se conferir a programação completa do Festival.

Durante a programação darei mais pitacos e opiniões sobre as películas vistas.

Desliguem seus celulares e tenham todos um bom filme!!!!!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mainstream


Foto: Linda jovem exibe camisa de protesto criativa


Por Alexandre Vasconcellos, pseudo-intelectual

Antes de mais nada, cabe uma definição:

Do inglês Main+Stream= Principal+canal, tendência. Numa tradução da expressão, seria algo como tendência em voga, atual.

Pois, vejamos.

Ando convivendo muito com pessoas antenadas. Sabe, daquelas realmente in, que entendem pacas de filmes B chilenos dos anos 40, música neo-folk-psicodélica-hindu de bandas do subúrbio de São Paulo ou do interior de Pernambuco. Ácidos críticos da cultura Pop e porta-estandartes da contracultura de ontem e de hoje, auto-intitulados como fiéis herdeiros desta importante incumbência: subverter o establishment.

Qual é o representante maior desta corrente de fluência sócio-cultural? Qual é o alvo? Qual porta deve ser batida até que caia? Estas perguntas são sempre respondidas com palavras que circundam o universo de uma outra, esta sim controversa e significante: Mainstream. Ela tem várias caras, várias roupagens, mas é só ela. É a Mídia. Opinião Pública. É a Globo (haha). É a Jovem Pan (hahahaha). De fato, é e não é tudo isso.

Entende-se como Mainstream, para efeito do debate, qualquer manifestação artística feita primordialmente para ser vendida para um bocado de gente, devidamente alocada em um canal de consumo, direcionada a determinado público.

Não há o que discordar, quando se diz que o grosso do grosso do que é veiculado pelos grandes mídias é puramente comercial. Fato. Embasado numa linguagem fácil, palatável, justamente para atingir um grande número de pessoas e, assim, obter resultados diretos e indiretos em escala, volume. É a economia da cultura, inexorável processo dentro de um universo capitalista.

O que me intriga nesta análise é o posicionamento “à margem”. O marginalismo, digamos, do “antenados way of life” é curioso. O discurso em voga neste segmento (que por si só é um grande e heterogêneo universo) é o de sê-lo para preservar sua integridade artística. A busca pelo santo graal da tal liberdade criativa, ser dono do próprio nariz, caneta, pincel, roteiro e que tais. Lutar com recursos limitados para levar sua arte a um público que possa digeri-la. Arte em primeiro lugar. Louvável! Clap Clap Clap!

Tudo muito bonito, muito legal. Mas, pegando-se uma lupa e chegando bem perto da coisa, tudo vira um grande Monet. Façamos um exercício: comparemos o quadro da contracultura dos anos 60 e 70 ao cenário atual.

Aspecto 1 – Difusão: Muitos dos movimentos anti-establishment surgiram em agremiações e grupos de pessoas, de diferentes classes, e se difundiram no boca-a-boca, em ações panfletárias que põem no chinelo muitas estratégias de marketing viral correntes. Logo, milhares de pessoas estavam mobilizadas.

Hoje o cara monta MySpace, blog, site, Orkut, Facebook, participa de fóruns de internet, além, é claro, da ação panfletária e networking social. A coisa toda é mais abrangente, porém, nasce de esforços individuais, o que é curioso. As ferramentas estão aí, acessíveis a boa parcela da população, porém, o poder de mobilização ainda é pequeno. Diversas tribos se formam para intercâmbio entre si e com outras que compartilhem de preceitos associáveis. Pode-se argumentar de que não há um grande movimento, como antes, mas sim, toda uma cena crescente, emergente, fervilhante.

Caímos então no aspecto 2 – Os Cenários: Lá atrás, impulsionados pela existência de conflitos explícitos entre governos, população e agentes econômicos, surgiam correntes ideológicas bem definidas. Estas faziam com que facilmente pudesse se envolver um grande número de pessoas em torno de qualquer coisa que contivesse em sua pauta argumentos contestatórios. Movimento Hippie, Tropicália, Pop Art e mais alguns tomaram grande proporção amparados por questões externas à Arte em si, fazendo desta um meio para uma finalidade.

Os de cá, agora, encontram-se numa encruzilhada semântica. Se dizem contestadores, provocadores, a crème de la crème, reserva moral e artística do mundo. Princípios sólidos e reputação ilibada. Porém, falam, na sua imensa maioria, para seus próprios nichos. Dizem querer propor uma nova linguagem, mas só conseguem falar para os mesmos 13, que trazem sempre mais um, mas nunca mais 7.

Quando muito, estes bravos ganham alguma repercussão no “mercado”, aparecendo em magazines on-line e sites especializados, com trabalhos expostos em páginas patrocinadas pelo Google e Lojas Americanas. Daí, se porventura chegam ao chamado Mainstream, são taxados como vendidos e são enxotados da sua tribo de origem, caindo nos braços amargos do povão para serem julgados pelo sucesso. Nascem então as frases “eu gostava de como era antes”, “sou fã deles desde o início, mas agora tocam na novela, daí, fudeu!” e semelhantes.

Chegamos ao aspecto final, 3- Mainstream e os mercados: O dilema de Tostines aqui se faz presente em uma poética simbologia: O artista está no mainstream porque agrada e vende ou ele agrada e vende porque se adequou ao mainstream?

Cara, como em tudo, inclusive neste texto que embebeda vossas pupilas, as generalizações são perigosas. Nem todo mundo lá é bom e nem todo mundo cá é ruim. Tem muita bosta independente e muita coisa boa com contrato milionário. E gosto não se discute, é óbvio, mas esse argumento inviabiliza qualquer debate (hehe).

Usando a comparação de épocas novamente, um tanto quanto cruel e díspar, pensemos: quem é mais contestador, revolucionário, qualificado, independente: Cansei de Ser Sexy ou Chico Buarque? Gerald Thomas ou Zé Celso (ou Antunes Filho, para os que sabem que defendo o Zé)? David Lynch ou Stanley Kubrick? Fernando Meirelles ou Joaquim Pedro de Andrade?

Falei essa porra toda para chegar neste ponto: porque os pretensos intelectuais da atualidade são tão ostensivos no combate ao Mainstream, ao establishment? Não se pode trazer a qualidade, a mudança e a inovação para a linguagem comercial? O contexto de hipermídia atual potencializa ou neutraliza a mudança?

Será a cena indie um posicionamento à parte, marginal ou será que esta já foi engolida pela mão invisível do mercado? Teria sido ela devidamente segmentada, etiquetada e alocada em canais de consumo bem claros, onde toda a dimensão comportamental é imposta pelos micro-nichos, agrupados em um macro cenário bem explorado economicamente?

O que é, hoje, o Mainstream e o que é hoje a contracultura?

Os independentes são a reserva moral da produção intelectual e cultural?

Há espaço para qualidade nos grandes veículos, mercadores a varejo de produtos para consumo fast food?

Seriam os antenados mais uma bandeja na grande gôndola do Supermercado?

Será que isso é prejudicial à contracultura?

Com uma internet em mudança, para bem e para mal, a produção cultural não se encontra em uma fase de necessidade de reinvenção, por necessidade mercadológica e também artística?

É possível ser Cool e ser Pop ao mesmo tempo, com qualidade?

Qualitativo e quantitativo rimam?


Parabéns aos que leram essa porra até aqui! Muito lixo para vocês!

Saudações Chorumélicas!

OBS 1: O maior fenômeno indie do Brasil chama-se Banda Calypso. E tenho dito! Não adianta virar o rosto, não! Eu sei o que se passa por trás desses óculos retangulares...

OBS 2: Chico, Gil, Caetano, Vinícius, Baden Powel, Tom, Beatles, Stones, Lou Reed, The Who, Cazuza, The Smiths, The Clash, Sex Pistols, Ramones, Tom Zé, Frank Zappa e muitos outros. Tudo Pop.

OBS 3: Mais um artigo com imensa chupação do Wikipedia. O restante é de filhos do Google.

OBS 4: Recorde de utilização de itálico em um blog brasileiro.

OBS 5: Se eu lançar uma banda, um filme, um programa de TV, um blog, um jornal, uma pipa ou um peido, quero ser mainstream, por favor.

Grato.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Crítica Álbum 7 “Vezes”, de O Rappa

O sétimo álbum de estúdio da banda carioca O Rappa, “7 vezes”, traz um pouco do de sempre, misturado com um tanto do recente e uma boa pitada de algo novo.

Do Rappa tradicional, vem a forte crítica social nas letras e a mistura de ritmos, passeando entre as vertentes do Reggae, do Rock.

A semelhança com os últimos trabalhos, em especial com “O Silêncio Q Precede o Esporro (2003)” está na clara referência a bandas que trabalham bem com bases eletrônicas derivadas do ska e do dub, como Asian Dub Foundation, banda gringa que, inclusive, tem relação muito próxima à banda carioca.

Ah, e a troca definitiva da linguagem direta e carnívora dos hinos da era pré-Lado A Lado B para a sutileza ácida dos relatos poéticos do cotidiano, como já visto em “O Silêncio”.

Do novo (digamos, mais explícito), uma maior utilização das guitarras em solinhos e incrementos, sem, no entanto, poluir demais o som, mas utilizando efeitos de distorção em algumas músicas, coisa não tão usual na banda.

E outra coisa boa: em algumas faixas, nota-se uma aproximação muito grande do som da banda com a levada do “Nação Zumbi”. Na seqüência “Meu Santo Tá Cansado”, “Verdade de Feirante” e “Hóstia”, dá até para se imaginar Du Peixe fazendo os vocais (em especial na “Verdade”).

Nada revolucionário, nada novo e nem mesmo nada do “Velho Rappa”, chata bandeira levantada por todo fã saudosista que toda grande banda de longa duração carrega. Se tivesse que definir “7 Vezes”, diria que é uma boa evolução de “O Silêncio”, até com algum resgate das raízes, mas salpicado novos temperos. Melhor que seu antecessor. Muito bom, sem ser antológico. Ótimo lançamento! Nota 8,5.

Faixa-a-faixa rapidinho!

Farei uma rápida livre associação de idéias para definir cada uma das músicas do álbum. Por favor, leiam com humor. É mais uma provocação. Depreciem com moderação!
1- Meu Santo Ta Cansado – Rappa engatando a primeira, com distorção longínqua e boas citações de poemas e músicas famosas

2- Verdade de Feirante – O que ta rolando na vitrola? Quem foi que colocou Nação Zumbi? Du Peixe com real variância vocal.

3- Hóstia – Letra bem Rappa. Mas o instrumental é o que aconteceria se você colocasse num estúdio Incubus, Beck e U2 depois de ouvirem Hendrix. California Love!

4- Meu Mundo é o Barro – Rappa em seu momento “lembrem-se: isso tudo começou com Reggae, mas eu já sei mexer no ProTools e fazer efeitos mil!”

5- Farpa Cortante – Sanfona Gaúcha + Asian Dub Foundation + Cypress Hill, com um refrão marcante. E mais efeitos.

6- Em Busca do Porrão – Posso me disfarçar de sobra mais soft de “Lado A Lado B” que ninguém repara.

7- 7 Vezes – Copie e cole o comentário da faixa 2 e se pergunte: o que é esse refrão?

8- Monstro Invisível – Bota Motown na cozinha, Los Hermanos na base, Pepeu Gomes solando e o próprio Falcão cantando. Ótima receita, pronta para servir!

9- Maria – Um Dub-Hendrix sombrio e crítico. Curto e grosso. No fim, traga uns caras de uma escola de samba pra dar uma moral.

10- Súplica Cearense - Música regional nordestina em base de Regaee...vocês estiveram em São Luís? No mínimo, têm ouvido Tribo de Jah.

11- Fininho da Vida - Baixo funkeado, guitarra levemente distorcida e acompanhando. Letra viajante. É o Rappa!

12- Documento - Imagine-se entrando em um centro espírita. No fundo, alguém ouve Led Zeppelin ou Neil Young, mas na pista um sambista e um rapper tentam se entender. É por aí.

13- Respeito Pela Mais Bela – Manu Chao, de frente para uma mesa de mixagem e um vinil com Samples estranhos, tentando cantar como um repentista urbano.

14- Vários Holofotes – Dava para ser samba-funk, mas decidi quebrar o ritmo com um quase-reggae, brincar com distorção e abusar da minha potência vocal.

Enfim...divirtam-se!!!!!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

São Paulo – Roteiro Cultural (Parte II)

Por Alexandre Vasconcellos – Enviado especial

Cabe aqui um esclarecimento. A idéia dessa série é mostrar alguns dos pontos e programas não tão óbvios da maior cidade do país. Em breve, falaremos da mesma coisa em nossa cidade natal/ sede, Rio de Janeiro.




TEATRO OFICINA – TRANSCENDENDO A ARTE

Vou tentar falar, da forma mais rápida e palatável possível, de algo que, por mais que se defina, não tem definição absoluta. Não, calma, não é nenhum pseudismo, desses que este espaço tanto combate. É, de fato, uma proposta inovadora. Tão inovadora que já existe há 50 anos e, apesar de colecionar admiradores mundo afora, não encontra similares aonde quer que vá.

O Teatro Oficina Uzyna Uzona, idealizado por ex-alunos de Direito do Largo de São Francisco (USP) em 1958, liderados por José Celso Martinez Corrêa, foi o berço artístico de vários movimentos culturais e políticos desde então, e já contou com alguns dos grandes nomes da dramaturgia brasileira. Gianfrancesco Guarnieri, Francisco Cuoco, Raul Cortês, Giulia Gam, Alexandre Borges, Fernanda Montenegro, Marília Pêra e Marco Naninni, dentre diversos geniais.

A importância histórica do Oficina, em si, já é um atrativo. Em suas encenações, encontraram voz algumas das personagens mais importantes da contracultura desde os anos 60. Logo em seu começo, a filosofia Antropofágica foi adotada, baseada em Oswald de Andrade. Esta apregoa a aglutinação e deglutição de toda e qualquer espécie de produto cultural, do lixo ao luxo, do estrangeirismo ao “brasileiro de raiz”, para, na mistura de tudo, resultar em uma vomitação de algo genuinamente brasileiro, porém, contemporâneo e mundial.

Como alguns já puderam perceber, o Oficina foi o berço do Tropicalismo em seu conceito e execução artística, em especial na formação da linguagem cênica e musical. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e outros contemporâneos falam abertamente da influência de Zé Celso e de seu grupo em sua produção. Zé dirigiu as duas únicas peças que podem ser consideradas como “tropicalistas”, “O Rei da Vela” (1967), de Oswald de Andrade, e “Roda-Viva” (1968), do Chico.

Desde então, não parou de influenciar a todos, da elite à favela. Hoje, por exemplo, trabalha com diversos jovens de classes menos favorecidas. Um projeto que, além de ter fundo social com foco na educação e disseminação da cultura artística, transforma muitos dos assistidos em atores e trabalhadores da trupe, concretizando ali uma verdadeira integração comunitária e inserção social através da arte, onde os mais experientes atores doam seu tempo ao projeto e os “meninos do Bixigão”, como são chamados, em referência ao bairro no qual o Oficina se encontra.

Outra particularidade do Oficina é a sua estrutura física. Em uma antiga oficina industrial, a premiada arquiteta Lina Bo Bardi (MASP, entre outros) concebeu um espaço único no mundo: não existe quase distinção entre público e palco. Tudo é tudo. Tudo junto.

Isso faz com que a peça seja viva, e que a interação entre espectador e ator seja intensa. Muitos dos espectadores participam de partes substanciais da encenação. Os que somente observam, acabam envolvidos por uma linguagem que mistura música, poesia, interpretação e um mix de explorações sensoriais inigualável, sempre com muita sensualidade e até sexualidade, porém, utilizando o corpo como uma metáfora, ou atividade-meio no processo comunicativo-interacional com a platéia. Como diria Zé Celso, “são todos convidados para uma celebração orgyástica da arte, do sexo, da vida!”.

Nos próximos dias 17, 18 e 19 de setembro, será lançado no festival de Porto Alegre a montagem do grupo para “Os Bandidos”, texto de Friederich Schiller, considerado por muitos como um dos mais importantes da história do teatro. Sobre a obra, Nietzsche dizia que, “se tivesse sido escrito antes da existência de Deus, Este nem precisaria ter aparecido”. Soma-se isso ao toque único de Zé Celso e companhia e já basta para que se aguarde mais uma releitura explosiva, bem-humorada e provocante do sempre revolucionário e metódico (sim, na Uzyna Uzona o que impera é o método e o rigor!) Teatro Oficina.

Outra opção imperdível para o visitante da terra da garoa!

Merda! Ou como agora diz Zé Celso, OURO!

EM TEMPO:

Trecho de "O Sertões", montagem em cinco partes, realizada entre 2001 e 2007.

Quer saber mais?

Documentário Teat(r)o Oficina - DVD DNA 50 anos (2001)

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

São Paulo – Roteiro cultural (Parte I)

Por Alexandre Vasconcellos - Enviado especial

São Paulo, a segunda cidade mais populosa do mundo, é, de fato, uma metrópole global. Lá, é possível experimentar grandes porções das principais manifestações culturais do planeta, representadas em restaurantes, teatros, museus, cinemas, centros culturais e, especialmente, pessoas. Mas um dos grandes destaques do roteiro cultural da cidade é algo bem brasileiro, porém, com um tratamento digno dos países mais desenvolvidos.

O Museu da Língua Portuguesa, instalado na tradicional Estação da Luz, na região do antigo centro da cidade, é uma verdadeira ode a nossa língua materna, suas raízes, histórias, manifestações e evoluções. Com um forte apoio do governo do estado e da Fundação Roberto Marinho, o museu, inaugurado em 2006, possui três andares abertos ao público, cada qual com sua função.

No primeiro piso acontecem exposições temáticas, sempre com um tratamento diferenciado sobre um tema importante de nossa língua. Atualmente, a exposição “Mas Este Capítulo Não é Sério”, sobre Machado de Assis, ocupa o espaço, concatenando de forma interessante fragmentos de textos do autor, juntamente com fotos, pinturas, documentos, vídeos e sons que ilustram todas as cercanias do universo de um dos principais ícones da literatura brasileira.

A mostra tem coordenação geral de Ana Helena Curti, arquitetura de Pedro Mendes da Rocha, curadoria de Cacá Machado e Vadim Nikitin e consultoria de José Miguel Wisnik. O título remete a um capítulo de uma de suas principais obras, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. “Com essa exposição, queremos, além de homenagear Machado de Assis, desmistificá-lo sem tirar seu inegável mérito, aproximá-lo do leitor”, diz Antonio Carlos Sartini, superintendente do museu.

No segundo andar, encontra-se uma exposição permanente sobre a Língua Portuguesa em si, dividida em três seções. Em um telão de 1800 metros de largura, toda a extensão da estação, são exibidos vários vídeos sobre a formação e as principais manifestações culturais do nosso idioma, ali tratado como “Português Brasileiro”. No centro, vários totens com palavras, artefatos e computadores representam as principais culturas que incidiram sob o Português Brasileiro. No outro lado, uma linha do tempo traz, desde 700 A.C. até os dias de hoje, os acontecimentos que vieram a moldar a língua portuguesa e a cultura nacional.

No terceiro andar, a cereja do bolo. Em um ambiente multimídia, um espetáculo de imagens, luzes, cores e sons coloca o espectador no centro de um amplo leque de manifestações da cultura brasileira, em um “planetário da Língua”. Da literatura clássica ao cordel, do chorinho ao hip-hop, do teatro à televisão popular. Tendo na palavra sua estrela, como veículo de formação, ação, degustação e modificação das expressões de um povo e suas ramificações. Com roteiro de Antônio Risério e direção de Tadeu Jungle, é narrado por Fernanda Montenegro e conta com a participação de expoentes como Zé Celso Martinez, Maria Bethânia, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Haroldo de Campos, Tom Zé entre muitos outros.

É um passeio imperdível. Não deve em nada aos principais museus do mundo. Tecnologia, refinamento artístico, profundidade cultural e, principalmente, uma linguagem acessível tanto a crianças quanto a adultos, de todas as classes. Mal dá para creditar que a entrada (inteira) custe somente R$ 4,00. Quem entra com certeza se diverte bastante e sai com uma visão diferente de si e do próprio país que o cerca. Além, é claro, de experimentar um programa cultural do mais alto nível, daqueles que você sai com um profundo orgulho de ser brasileiro – e falar português, é claro.


“Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma”
Fernando Pessoa.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O CHORUME - MÚSICA

Por Raphael Dias Nunes

Aí vão algumas resenhas de discos já lançados, mas que merecem destaque na coluna:


SINAL ABERTO – PAULINHO DA VIOLA E TOQUINHO (AO VIVO - 1999)


O disco duplo foi gravado na apresentação de gala feita no Canecão, nos dias 14 e 15 de setembro de 1999. Paulinho da Viola e Toquinho, em shows magníficos, fizeram uma parceria digna de dar orgulho ao povo e música brasileira. Em uma sincronização perfeita, os acordes tocados com a já conhecida classe magistral de Toquinho, parecem completar a suavidade e elegância da bela voz de Paulinho.
No show, clássicos de ambos os compositores como "Nada de Novo", "Dama de Espadas", "Dança da Solidão" e "O Caderno/ Aquarela". O destaque fica para uma lindíssima apresentação solo feita por Toquinho, onde ele harmoniza três canções, "Se ela Perguntar/ Caminho de Roças/ Gente Humilde" que são literalmente "cantadas" pelas cordas de seu violão. O violonista paulista ainda toca "Tarde em Itapuã" e "Regra Três". Já Paulinho, leva a emoção ao público em "Sinal Fechado" e a empolgação geral em "Timoneiro” e “Argumento".
Um trabalho divino só poderia ser o resultado de uma brilhante parceria entre dois gênios.

Faixas:
CD1
01 - Nada de Novo
02 - Que Maravilha
03 - Na Canola
04 - Desencontro
05 - Corcovado
06 - Dama de Espadas
07 - Duvide-o-dó
08 - Minha Profissão
09 - Onde a Dor não tem Razão
10 - Coração Merudente
11 - Tua Amarim

CD2
01 - Caso Encerrado
02 - Cantando
03 - Ame
04 - Se Ela Perguntar
05 - Desafinado
06 - Dança da Solidão
07 - O Caderno
08 - Lamento
09 - Sinal Fechado
10 - Tarde em Itapoã
11 - Regra Três
12 - Turbilhão
13 - Caso Encerrado


xxxxxxx xxx xxxxxxxx


THE DOORS – STRANGE DAYS (1967)


Remotos tempos de 1967, a banda The Doors do ainda então promissor Jim Morrison lança o seu segundo disco no mesmo ano. Em "Strange Days", o trabalho foi feito com capricho. Músicas com melodias desde amorosas até em tom de protesto, ficariam marcadas eternamente entre os melhores sucessos da banda.
O disco une a atmosfera misteriosa e questionadora - característica da banda - com uma outra amorosamente gostosa. As letras, hora suaves, hora ácidas, mas sempre geniais, vêm muitas vezes acompanhadas de versos poéticos, arte costante em grande maioria das líricas do grupo. E a poesia torna-se literal na faixa "Horse Latitudes", que é recitada sob um efeito estremecedor e agoniante do teclado. O som, que não é uma música, está longe de ser agradável, entretanto pode-se perceber que a intenção deles era de fato, causar mal-estar. A faixa é imediatamente emendada com "Moonlight Drive", que é a mais pura poesia amorosa de Morrison, dada as metáforas como "Vamos nadar até a lua/ Vamos escalar a maré/ Penetrar na noite que/ A cidade dorme para esconder..." é de arrepiar. As paixões da juventude e a tônica da mulher como centro das inspirações segue nas canções "You're Lost Little Girl", "I Can't See Your Face in My Mind", "Unhappy Girl" e "My Eyes Have Seen You". Já o mistério, as críticas abstratas e o protesto ficam por conta de "Strange Days" e "People Are Strange", que mostram a visão de mundo de uma banda revolucionária para a época. E finalmente, a coisa esquenta de vez em "When The Music's Over", uma das melhores músicas do grupo. Conhecida por sua polêmica, a faixa é também a mais longa do álbum. Nela, Morrison extravaza toda a sua rebeldia em forma de arte e choca com o teor de suas histerias. "Father - I want to kill you - Mather?.... - I want to...- Huuu yeahh..." neste fragmento digno de Édipo, dá pra se ter uma noção até onde eles poderiam chegar. Se até hoje eles conseguem impressionar e chocar, imagine em 1967...

Faixas:
01 - Strange Days
02 - You're Lost Little Girl
03 - Love Me Two Times
04 - Unhappy Girl
05 - Horse Latitudes
06 - Moonlight Drive
07 - People Are Strange
08 - My Eyes Have Seen You
09 - I Can't See Your Face in My Mind
10 - When the Music's Over

xxxxxxxxxxxxxxx xxx xxxxxxxxxxxxxx


MOMBOJÓ - NADADENOVO (2004)


Uma banda nova, um primeiro disco, um som completamente diferente de tudo que se já viu. Foi com essa originalidade e audácia que o grupo pernambucano Mombojó apareceu no cenário musical. Misturando uma infinidade de ritmos, que vão desde o Samba/ Bossa, passando pelo Soul/ Rap e indo até as raízes do Rock/ Manguebit. A misturada parece ser meio maluca, mas agrada de primeira. O jovem conjunto, composto por voz, violão/ guitarra, baixo, bateria/ pandeiro, teclado e flauta conseguiu produzir músicas de extrema qualidade, variando climas de alegria (Deixe-se Acreditar), reflexão (Baú/ Cabidela), religiosidade (A Missa), amor (Nem Parece/ Merda) e até psicodelia (Estático/ Absorva). O resultado final do trabalho foi esse lindo disco, capaz de emocionar "à primeira vista".
A maturidade presente nas letras impressiona ainda mais ao se saber que os integrantes da banda, no ano do lançamento, tinham idades que iam de 17 a 21 anos. Nada mal para um começo de carreira destes jovens e promissores músicos. Mas infelizmente, o segundo disco da banda "Homem Espuma" (2006) frustrou boa parte de seus fãs e tornou-se exageradamente mal dosado nas características misturas de ritmos. O álbum deixou muito a desejar, e boa parte dessa decepção se deve à grande expectativa gerada no lançamento em 2006, visto que o sucesso de "Nadadenovo" foi estrondoso. A partir daí, a banda desandou, passou por momentos de crise (inclusive em alguns shows) e para piorar, ainda uma forte baixa com o falecimento de seu flautista.
O que resta agora, é aguardar seus próximos trabalhos. Talento, os jovens pernambucanos já mostraram que têm de sobra. Até demais, ao ponto de sair do compasso.

Faixas:
01 - Cabidela
02 - Deixe-se Acreditar
03 - Nem Parece
04 - Discurso Burocratico
05 - A Missa
06 - Absorva
07 - O céu, o Sol e o Mar
08 - Adelaide09 - Duas Cores
10 - Estático
11 - Merda
12 - Splash Shine
13 - Faaca
14 - Baú
15 - Container


quarta-feira, 23 de julho de 2008

O CHORUME - MÚSICA

Por Raphael Dias Nunes

DISCOS - LANÇAMENTOS

Danç-Êh-Sá - Tom Zé

A Gratuidade da Onomatopéia Experimental Ambulante


Em um disco de apenas oito faixas, o cantor e compositor baiano Tom Zé mantém o seu padrão, que é o não-padrão. A inovação e o caráter experimental faz sempre que cada lançamento seu seja uma surpresa, algo que ainda foi experimentado em nossa audição musical.

Em "Danç-êh-sá", a coisa não podia ser diferente. Desta vez, o que se pode perceber de imediato é a ausência de letras em suas músicas. Isso não significa que as mesmas não possuem vozes. As canções são feitas por diversas onomatopéias, gemidos e recitações feitas por Tom Zé e os demais músicos de sua banda. Usando instrumentos que algumas vezes chegam a ser difíceis de reconhecer, a voz é o instrumento mais utilizado e explorado neste CD. Em todos os momentos, existem sons e grunhidos vindos das gargantas humanas, feitos nos mais diversificados tons, frequências e timbres. Tudo isso torna a música descontraída e muitas vezes engraçada. Em muitos "fade-outs" o som abre espaço para as já conhecidas "blafemações" de Tom Zé.

O destaque fica para as faixas "Atchim", que é cômica por musicar todos os efeitos sonoros de um espirro, onde Tom ainda cita "O carnaval é enquanto os Deuses descansam/ Acordam os Deuses/ Começa o diabo da vida".
Já em "Taka-tá", em mais um "fade" da percussão, pode-se ouvir uma espécie de endo-marketing que Tom faz de si próprio, usando as críticas feitas a ele a seu favor: "Esse Tom Zé é um vagabundo/É um desordeiro/ Não vale nada/ Ele acaba dizendo que o povo é inteligente/ Esse Tom Zé vai perverter a sociedade/ O que será do mundo se a classe média começar a pensar?/ O primeiro mundo não quer isso/ Acabe essa música dele!"... É genial.
A sonoridade criativamente esquizita segue em todas as demais músicas, como em "Cara-Cuá", mais uma recitação de caráter de protesto: "Tudo dominado/ Com a publicidade e tudo mais".
No mais, muitos instrumentos inovadores são utilizados, principalmente os de sopro.

A polêmica, a identificação com os jovens e a rebeldia sob forma de protesto voltam a ser a tônica deste curioso disco, que ainda possui mais uma grande e principal inovação: Pode ser baixado gratuitamente pelo site da gravadora. Tom Zé, ao contrário de muitos artistas que insistem na teimosia de declarar guerra com a divulgação geometricamente progressiva de álbuns em formato digital na rede, resolveu abrir o download gratuito para qualquer internauta. Basta acessar o site de sua gravadora Trama e cadastrar-se.

.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O CHORUME - CINEMA

Por Raphael Dias Nunes

Cachaça Cinema Clube - Porque Cinema é a Nossa Cachaça

O evento, que ocorre mensalmente - sempre às quartas-feiras - no Cine Odeon, traz ao público uma fina seleção de curta metragens. Iniciando sempre às 20h30m, o espectador paga apenas R$10,00 (meia R$5,00) e tem à sua disposição além dos curtas, uma degustação de cachaça e pista de dança. Com essa proposta, o Cachaça Cinema Clube, criado em 2002 por 4 curta metragistas, vem sempre lotando os 600 lugares da sala do Odeon e termina sempre a 1h da matina.


Nesta quarta (09/07/2008), as atrações serão as seguintes:

- A Voz da Felicidade, de Nelson Nadotti (1987): 10'
- O Incrível Sr. Blois, de Nuno César Abreu (1984): 12'
- A Estória de Clara Crocodilo, de Cristina Santeiro (1981): 10'
- Meow, de Marcos Magalhães (1984): 8'
- O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, de de Jorge Furtado e José Pedro Goulart (1986): 14'

Depois dessa, é só sentar e apreciar o cinema e, logo após, a cachacinha também!


xxxxxx xxx xxxxxx


Cinema Crítica
O Escafandro e a Borboleta
"Le Scaphandre et le Papillon", França, 2007, 112 min
Drama. Direção: Julian Schnabel. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner e Max von Sydow.


A 8 de Dezembro de 1995, um acidente vascular brutal mergulhou Jean-Dominique Bauby, jornalista e pai de duas crianças, num coma profundo. Ao acordar, todas as suas funções motoras estão deterioradas. Sofrendo do que a Medicina denomina locked-in syndrome , não consegue mexer-se, falar, nem sequer respirar sem assistência. Neste corpo inerte, apenas um olho mexe. E esse olho passa a ser a sua ligação com o mundo, com os outros, com a vida. Pisca-o uma vez para dizer "sim" e duas para dizer "não". Com o olho, indica as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras... Com o olho, escreve este livro "O escafandro e a borboleta", cujas frases memorizou todas as manhãs, durante semanas, antes de as ditar.

Vencedor do prêmio de melhor diretor no Festival de Berlim de 2007, este comovente filme mostra a tristeza e a beleza de se viver em condições drásticas e ainda sim, repassar sua mensagem e visão de mundo. O longa, apesar de muito triste e profundo, consegue ainda ter momentos de bom humor. Vale mais que o ingresso. É uma nobre lição de vida.


O filme encontra-se em cartaz nos seguintes cinemas: Espaço de Cinema 1, Estação Vivo Gávea, Odeon, Ponto Cine, Espaço Rio Design 2 e Estação Barra Point.


.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O CHORUME - MÚSICA

Por Raphael Dias Nunes

O MISTÉRIO SEM FIM

A lenda que gira em torno da sincronização entre o filme " O Mágico de Oz" e o disco "The Dark Side of The Moon"


O assunto é pra lá de batido. Alguns acreditam numa verdadeira sincronização genial feita pelo Pink Floyd, outros já são mais céticos e afirmam ser mera coincidência. Mas o fato é que o a brincadeira funciona e impressiona. Basta cortar o som original do filme "O Mágico de Oz" e, assim que o leão da MGM dar o seu terceiro e último rugido, apertar play no disco "Dark Side os The Moon", do Pink Floyd. A partir daí, uma nova trilha sonora alternativa é dada ao filme, feito em 1939. O disco, que é considerado por muitos a grande obra-prima da banda inglesa de rock progressivo, foi gravado em 1973, bem depois do lançamento do filme.
As coincidências entre as duas obras - filme e disco - começam já pela capa do CD: O prisma óptico que recebe uma faixa luminosa branca em seu lado esquerdo, que é convertida em um feixe colorido no lado direito, pode ser comparado com a natureza revolucionária do filme, o primeiro a usar a tecnologia Technicolor. É possível se fazer uma analogia com o momento em que o filme sai do preto e branco para o colorido. Com o filme já em execução, são diversos os momentos em que existe total sincronia do som com as imagens. Já no início, com a apresentação dos créditos, o som tranquilo de "Breathe in The Air". Na entrada de "Time", o clima tenso do filme combina com a introdução da música. Há ainda outros bons momentos, como em "Us and Them" e em "Brain Damage". Mas o grande momento mesmo se dá em toda a brilhante faixa "The Great Gig in The Sky" e, logo em seguida, em "Money". A cena do tornado é agonizante assim como os grito estridente feminino dado na música, os momentos de desespero parecem acompanhar cada suspiro da cantora. É uma harmonia perfeita durante toda a faixa, que é de deixar de cabelos em pé. Em sequência, a menina Dorothy abre a porta da casa, entrando no mundo de Oz e tornando o filme colorido, ao som do barulho dos caixas e do clássico solo de baixo, na introdução de "Money". O trecho pode ser conferido em http://www.youtube.com/watch?v=uNbv0L1x0iA .
A polêmica em torno dessa brincadeira é grande. Muitos acreditam que é loucura, coisa de doidão. Outros dizem que isso foi feito prositalmente na mais absoluta das certezas, mesmo com o fato sendo negado com veemência pelos próprios músicos do Pink Floyd. A questão fica por conta do espectador. A única certeza é a diversão garantida ao ver essa curiosa mixagem.


xxxx xxx xxx xxx xxx xxx


INDICAÇÃO CHORUME


Groundation - Young Tree

Para quem gosta de reggae de qualidade, o álbum "Young Tree" é um prato cheio. Aliás, a qualidade da banda é de impressionar. Seja tanto na diversidade das influências para se construir um reggae que não perde suas raízes, quanto na qualidade dos músicos e dos instrumentos utilizados. Adeptos a Jah, o grupo americano de reggae espiritual citam seu Deus diversas vezes e mantém a excelência do som originado na Jamaica, no grupo The Waillers. Não é à toa que eles são considerados a melhor banda de reggae da atualidade. Muitos ainda acham que dentro do gênero musical, eles ficam atrás apenas do rei Bob Marley.
O disco, o primeiro dos seis de toda a banda, foi produzido em 1999 e conta com músicas extraordinárias. O sopro e o clima dançante/ alegre pode ser conferido na maioria de suas faixas, com a exceção de "Dream", uma faixa completamente diferente do todo o álbum, e por isso, uma das melhores, senão a melhor. Com um piano clássico misturado a uma batida de guitarra típica de reggae, a percussão é delicadamente caprichada neste som. Os solos de piano são lindos e deles, pode-se perceber a influência que o jazz tem sobre a banda. Nas demais faixas, o destaque fica para "Long Long Ago", "Glory To The Kings", "Confusing Situation" e "Craven Fe' Death", onde se pode distinguir o clima de relaxamento/ suavidade provocado pela percussão e o sopro, sem deixar de ter momentos alegres e empolgantes na mesma música. Um capricho. Nas duas últimas faixas, a banda arrisca um Dub, em "Groundation Chant" e em "Groundation Dub", mostrando que o eco característico do Dub também viria a influenciar o grupo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O CHORUME - MÚSICA

Por Raphael Dias Nunes

SHOWS

João Gilberto - Nova York

Apresentando-se no Carnegie Hall, João Gilberto, aos 77 anos, fez uma memorável homenagem aos 50 anos da Bossa Nova. O baiano foi um dos principais inventores do ritmo que tornou conhecida a música brasileira por todo o mundo. Dentre as 25 canções que foram tocadas no espetáculo, destaque para os clássicos "Chega de Saudade", "Samba de uma nota só", "O pato", "Desafinado", "Lígia", "Brigas Nunca Mais". Depois de deixar o palco sob intensos aplausos e dar 5 minutos de intervalo, o músico voltou para encerrar o show histórico com chave de ouro nos acordes de "Garota de Ipanema". O show teve importância histórica para a música brasileira e seu respectivo prestígio no exterior. A Bossa Nova, ritmo que possui em sua natureza a leveza e a paixão, há 50 anos atrás vinha sendo inventada por Tom e Vinícius. João reinventou-a com sua genialidade musical e forma única de tocar violão e cantar. Vida longa à Bossa!

Cantor virá ao Rio no dia 24 de agosto
João Gilberto voltará a se apresentar no Brasil nos dias 14 e 15 de agosto, Teatro Ibirapuera (São Paulo); no dia 24 de agosto, será a vez do Rio de Janeiro recebê-lo no Teatro Municipal; por fim, ele voltará a sua terra natal no dia 5 de setembro, no Teatro Castro Alves. Em novembro, o cantor baiano viajará para o Japão, onde fará mais três apresentações.


xxxxx xxx xxxxx


EVENTOS


Conversa Afiada - Terça em Movimento
A arte e suas mais variadas formas de se expressar estão em evidência neste evento semanal do botequim Conversa Fiada. As Terças em Movimento acontecem, obviamente, todas as terças-feiras, no espaço "Conversa Afinada", da franquia de Ipanema (Rua Vinícius de Moraes, 75). Na programação, curta-metragens, monólogos, recitações de poesias - onde qualquer um pode participar -, shows musicais, esquetes de teatro e música na pista com DJ's.
Ontem, os poetas e atores presentes fizeram a diversão do público com boas apresentações por partes de uns e outras ficando um pouco a desejar. Entretanto, os momentos de maior animação ficarm por conta das duas bandas que se apresentaram. A primeira delas, a Dirus Bambas Shows, levou ao público o som da Bossa Nova e da MPB, numa curta apresentação, que teve direito a pedido de bis da platéia.
No repertório da curta apresentação, além das músicas consagradas "Chega de Saudade", "Go Back" e "Odara", a cantora apresentou ao público a leveza melódica de "Flores Brancas", música de sua autoria que pode ser ouvida em (www.myspace.com/dirusshows). A banda foi formada por uma percussão leve (pandeiro, bongô e cajón) e baixo. No violão, a experiência e a voz grave de Mariô fecha em completa harmonia o dueto vocal com a cantora Dirus. Sua belíssima voz ainda vem acompanhada dos lindos solos de sua sempre presente gaita cromática, levando o público ao delírio.


Aos amantes da música, teatro, cinema e poesia, vale muito a presença. A entrada sai por R$5,00.



INDICAÇÃO CHORUME

Funk Como Le Gusta - Roda de Funk

A mistura predomina no álbum. O que não o torna ruim, pelo contrário. Com composições novas e antigas, sempre em versões alternativas no caso das regravações, a "big-band paulioca" arrasa. As influências são as mais diversas: A batida do funk na percussão, a magia do soul em algumas canções mais lentas, o acelerado do rap em alguns versos, o swing do samba-rock na batida da guitarra e até o jazz no sopro do saxofone. Com diversas "jam sessions", ou seja, músicas meramente instrumentais, a banda mostra o que eles são capazes de fazer na base do improviso. Isso pode ser ouvido, por exemplo, em "Zambação". Entre os sucessos, estão "Olhos Coloridos", "Dezesseis Toneladas" e "Fourty Days" (em duas versões). A animação e o ritmo dançante completam este bom trabalho do grupo, que resultou no melhor disco feito por eles até hoje.

sábado, 21 de junho de 2008

O CHORUME - CINEMA

Por Raphael Dias Nunes


CINEMA CRÍTICA:
ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO
Dirigido por Sidney Lumet. Com: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Marisa Tomei.


Preceitos em Cheque
Dois irmãos planejam um roubo a uma joalheria. Entretanto, a loja pertence à família dos irmãos. O assalto dá errado, tudo dá errado. Este é o cenário do Drama muito bem montado por Sidney Lumet. No longa, a ação dos personagens coloca em cheque valores morais e preceitos sociais. E abre espaço também, para discussões sobre relações familiares conturbadas.

A história, que gira toda em torno do roubo, é seguida por um roteiro não-linear: Sem uma ordem cronológica exata, com idas e vindas em relação aos dias que antecederam e procederam a data do assalto. Com isso, algumas cenas chegam a se repetir, fazendo com que haja compreensão geral do fato, sob diversas perspectivas. Este recurso torna a história mais intrigante, pois ao longo do desenrolar da trama, toda ação (mesmo que banal) tem uma lógica, tudo se encaixa. As atuações brilhantes de Philip Seymour Hoffman (como Andy Hanson, o irmão mais velho) e Ethan Hawke (como Hank Hanson, o irmão mais novo), dão o capricho final a este filme polêmico, dramático e muito bem-feito.

Apesar do ato do assalto ser a referência para todos os demais acontecimentos do filme, a questão principal fica por conta das relações familiares. O que leva a crer, antes de qualquer julgamento primário, que o roubo foi apenas o estopim de uma crise trágica já anunciada. O que de fato, motivou os dois irmãos a conspirarem contra a própria família? Achar que seria fácil e seguro? A decisão deles não fora motivada somente pelo drama pessoal que cada um deles atravessava. O medo do fracasso profissional/ financeiro/social e o conseqüente desespero resultante, tiveram clara influência. Mas não foi apenas isto. Entram em jogo também, questões traumáticas de relações conturbadas entre pai e filho, e até entre os próprios irmãos. O filme mostra, em uma de suas mais importantes cenas, o sentimento de revolta contra o pai, guardado pelo filho primogênito, por se sentir renegado em sua infância. Mostra a semelhança gritante entre o pai e o filho, por mais que eles estivessem ressentidos um com o outro. Nada disso é mostrado ao acaso. Tudo se fundamenta, se encaixa. Existe uma lógica (ir)racional dentro de todo esse contexto. E a soma de todos esses elementos configura um desfecho semelhante a uma tragédia grega.

E que tipo de reação teria a família, ao descobrir que os responsáveis pela tragédia foram seus próprios membros? O que o caberia ao chefe de família? Quais os limites para uma total ruptura de núcleo familiar? E onde que pode estar o erro de um pai em toda essa história? Até onde são os limites da vergonha de expor um fato que revoltaria toda uma sociedade? Deve-se liberar a eutanásia?

Essas e outras possíveis questões serão o ponto de debate para o espectador que deixar a sala, após este bom e polêmico filme.